O ronco abafado do motor do trailer ecoava enquanto a família Phillips avançava pelas estradas secundárias de Marrocos. Dentro do veículo, o clima era uma mistura peculiar de descontração familiar e uma tensão subterrânea que apenas Arthur e Hanna compreendiam plenamente.
Sebastian dirigia com uma das mãos no volante e a outra gesticulando enquanto reclamava sobre o calor e o itinerário mal planejado. Klara tentou organizar alguns mapas e lanches em uma pequena prateleira, enquanto Sophie — sentada no banco estofado logo atrás da mesa — mantinha os olhos fixos em Hanna.
Para Sophie, a garota loira era um mistério fascinante. Hanna vestia roupas improvisadas, trazia o corpo rígido como o de um soldado e exibia uma quietude quase assustadora, contrastando fortemente com a própria rotina adolescente de festas e colégios internos na Inglaterra.
— Então... — Sophie começou, quebrando o silêncio desconfortável enquanto apoiava o queixo nas mãos. — Vocês dois são o quê? Irmãos? Turistas perdidos no meio do nada que queriam aparecer do nada na beira da estrada?
Hanna sequer piscou. Ela olhou para Sophie de relança, seus olhos azuis frios como o gelo, avaliando se a pergunta escondia algum tipo de segredo ou ameaça. Na dinâmica original da série, Hanna demorou a entender as nuances sociais de uma garota normal da sua idade, sentindo-se atraída e ao mesmo tempo assustada com aquela normalidade.
Antes que Hanna pudesse pronunciar qualquer coisa de forma ríspida, Arthur interveio de forma suave, mantendo um tom amigável e descontraído.
— Digamos que tivemos um pequeno problema com o nosso aluguel de carro e o sinal de celular resolvemos tirar férias permanentes — respondeu Arthur, ajustando o tom de voz para soar exatamente como um jovem britânico viajante de mochilão. — Sou Arthur, e ela é Hanna. Agradecemos muito pela carona. Prometemos não dar trabalho até chegarmos ao porto.
Klara olhou para trás através do retrovisor interno, abrindo um sorriso acolhedor e típico cansado de mãe.
— Oh, querido, não se preocupe com isso! O Sebastian adora reclamação, mas no fundo ele gosta de fingir que é o herói salvador das estradas, não é, querido? — disse ela, lançando um olhar bem humorado para o marido.
— Claro, claro... desde que ninguém decidiu roubar o meu estoque de chá inglês, é tudo ótimo — resmungou Sebastian de volta, embora houvesse um tom de leveza em sua voz.
Hanna virou o rosto para a janela, observando a paisagem árida passar rapidamente. Por um segundo, a rigidez em seus ombros cedeu minimamente. Ela nunca houve convivência com uma família normal, com pais discutindo por bobagens e uma adolescente fazendo perguntas banais. Era um mundo completamente projetado para alguém criado para ser uma máquina de eliminação pelo Projeto Utrax.
Sophie viu uma hesitação e empurrou uma caixinha de biscoitos pela mesa, oferecendo-lhe silêncio.
Hanna olhou para o pacote, depois para o rosto curioso e amigável de Sophie. Sem dizer nada, ela estendeu a mão, pegou um biscoito e deu uma mordida pequena.
Na frente, Arthur observava a cena em silêncio, sabendo que aquele breve momento de normalidade era frágil como vidro. Fora dali, os jipes de Marissa Wiegler continuaram patrulhando as estradas e os portos, fechando o cerco. Mas, por enquanto, naquele trailer barulhento, a loba de Utrax estava dando seu primeiro passo real rumo à humanidade.